abril 19, 2013

Capítulo 8 - Clara

 
"Lembro-me que foi cantando uma música que dizia que hoje era dia da minha escolha, vida ou morte, o que eu iria aceitar…"


30 de julho de 1988, 11h58
Abro os meus olhos. Minha visão está embaçada. Vejo um quarto branco e agulhas em meu braço. Eu estou tomando soro.
André está ao meu lado.
- O que aconteceu?
- Você sabia que estava grávida? Não me falou nada? Eu deveria deixar você aqui sozinha!
- Do que está falando? Quem está grávida?
- Não se faça de ingênua. O médico disse que você abortou. Queria ter um filho meu só para ficar comigo… É isso?
Estou me sentindo um lixo neste momento. Eu não sabia que estava grávida, e mesmo que estivesse, aquela reação do André não era justa. Estávamos juntos havia um bom tempo.
Não respondo nada. Apenas choro.
Ele sai revoltado pela porta do quarto e não volta mais.
Recebo alta dois dias depois e vou para a casa da minha mãe.
André não vem me visitar. Ela, cuidadosamente, faz sopa de espinafre e me dá para tomar.
Deixa-me de repouso por cinco dias. Sempre levando alimento na cama.
O cuidado dela é imenso comigo. Percebo que em nenhum momento me fala do seu Deus, mas sinto falta.
Meu pai toda hora vai ao meu quarto. Compra doces e me presenteia com eles.
Entro em depressão. Falo somente o necessário com minha mãe e meu pai. Estou deixando de atender ao telefone, de assistir televisão, estou deixando de viver.
Um mês se passa e nada muda dentro de mim. Até que o silêncio de minha mãe é quebrado.
Ela levanta bem mais cedo do que o de costume. Arruma-se e vai até o meu quarto. Faz-me levantar e, sem dizer aonde vamos, coloca roupas limpas em mim. Penteia meus cabelos azuis e põe um pouco de água de cheiro em meu pescoço.
Não falo nada. Eu não tenho forças para falar nada.
Entramos no carro e meus pais me levam para a igreja.
- Não acredito que me trouxeram aqui. O que vou fazer aqui nesse lugar?
O homem, naquele lugar, diz para olharmos para o que está escrito na parede. E fala, fala, fala. E me irrita, me irrita, me irrita.
Eu quero o André.
No segundo domingo, é a mesma coisa. Eu já estou ficando cansada de ter que obedecer a minha mãe. Mais uma vez aquele homem fala e eu não ouço e nem entendo nada. Acho tudo sem vida, quero voltar a viver. Tenho raiva daquele homem falando o tempo todo para aceitar o Deus dele.
No terceiro domingo, resolvo levantar sozinha e me arrumar. Minha mãe fica imensamente feliz.
Eu fico com imensa raiva. Faço isso para ela parar de empurrar esse Deus para mim. Meu Deus é o André, é ele que quero. quando eu tiver bem velhinha posso até querer virar crente, mas agora eu sou jovem e meu corpo é forte.
Será que ninguém entende que eu quero curtir? Será que terei que ir todo domingo nessa maldita igreja?
Lembro-me que foi cantando uma música que dizia que hoje era dia da minha escolha, vida ou morte, o que eu iria aceitar…
Eu aceito a vida, vida com o André, a minha vida. Quero ela de volta! Quero o André de volta!
 
Confiando em Deus...
 

0 comentários:

Postar um comentário